Muitos adolescentes e adultos passam anos sentindo que o mundo social tem regras que todos entendem menos eles, que certos sons ou ambientes cansam demais, ou que precisam de muito esforço para parecer como os outros. Para algumas dessas pessoas, essa experiência tem relação com o autismo.
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por diferenças na comunicação e na interação social e por padrões de comportamento, interesses ou atividades restritos e repetitivos, incluindo diferenças na forma de processar estímulos sensoriais.
É um espectro: as necessidades de suporte variam muito de pessoa para pessoa. Pessoas com nível 1 de suporte costumam ter boa linguagem e capacidade intelectual preservada, e por isso podem chegar à adolescência ou à vida adulta sem identificação, muitas vezes depois de anos de exaustão, ansiedade ou sensação de inadequação.
O autismo não é algo a ser curado. O trabalho psicológico busca compreender o funcionamento de cada pessoa e reduzir o sofrimento associado. A avaliação neuropsicológica, que realizo no consultório, pode contribuir para esse processo, junto com a avaliação de outros profissionais.
Esses sinais servem como orientação e não substituem uma avaliação profissional. Cada pessoa é única, e só uma conversa cuidadosa permite entender o seu caso.
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No DSM-5-TR, o Transtorno do Espectro Autista está no capítulo dos transtornos do neurodesenvolvimento e reúne em um único diagnóstico quadros que antes tinham nomes separados, como síndrome de Asperger e transtorno autista. Os sinais precisam estar presentes desde o início do desenvolvimento, mas o manual reconhece que podem só ficar evidentes quando as exigências sociais ultrapassam as capacidades da pessoa, ou ficar mascarados por estratégias aprendidas ao longo da vida.
Déficits persistentes em três áreas: reciprocidade socioemocional (como dificuldade em conversas de ida e volta e em compartilhar interesses e emoções), comportamentos comunicativos não verbais (contato visual, gestos, expressões faciais) e desenvolvimento, manutenção e compreensão de relacionamentos.
Pelo menos dois de quatro: movimentos, uso de objetos ou fala repetitivos; insistência na mesmice e adesão inflexível a rotinas; interesses restritos e muito intensos; e hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais.
A gravidade é descrita separadamente para cada domínio em três níveis: nível 1 (exige apoio), nível 2 (exige apoio substancial) e nível 3 (exige apoio muito substancial). O nível pode variar com o contexto e ao longo da vida.
O diagnóstico registra se há ou não comprometimento intelectual e de linguagem associado, se há associação com condição genética ou médica conhecida, com outro transtorno do neurodesenvolvimento, mental ou comportamental, e se há catatonia.
Quadro que entra no diagnóstico diferencial: dificuldades no uso social da linguagem, sem os padrões restritos e repetitivos que caracterizam o TEA.
Estas descrições são resumos educativos do DSM-5-TR (Associação Americana de Psiquiatria, 2023). Só um profissional habilitado pode fazer um diagnóstico, depois de uma avaliação cuidadosa. Ter alguns desses sinais não significa ter um transtorno.
Modelos da terapia cognitiva, da análise do comportamento, da ativação comportamental, da neurociência e da neuropsicologia ajudam a entender o que mantém o sofrimento e o que ajuda a mudar.
A pesquisa cognitiva sobre o autismo descreveu diferenças na teoria da mente, isto é, na capacidade de inferir intuitivamente o que os outros pensam e sentem (Baron-Cohen, Leslie & Frith, 1985), e um estilo de processamento voltado para detalhes, a coerência central fraca, que pode ser também uma força em tarefas que exigem precisão (Happé & Frith, 2006). Modelos mais recentes explicam a sobrecarga sensorial e a necessidade de previsibilidade por um peso menor das expectativas prévias na percepção, o que torna o mundo mais intenso e menos previsível (Pellicano & Burr, 2012).
A análise funcional, sistematizada por Iwata et al. (1994), parte da pergunta sobre qual função um comportamento cumpre para a pessoa, como reduzir uma estimulação excessiva ou escapar de uma demanda difícil, em vez de apenas tentar eliminá-lo. Em adolescentes e adultos, essa lógica ajuda a entender crises, evitação e rituais no contexto. A TCC, com adaptações como linguagem mais concreta, recursos visuais e inclusão dos interesses da pessoa, tem sido estudada para tratar ansiedade e depressão em adultos autistas (Spain et al., 2015), quadros muito frequentes nessa população (Lai et al., 2019).
O autismo tem forte base genética e se manifesta em um perfil muito heterogêneo de habilidades e dificuldades (Lord et al., 2018). Diferenças em funções executivas, como flexibilidade cognitiva e planejamento, ajudam a explicar o desconforto com mudanças (Hill, 2004). Pesquisas com adultos mostram que a camuflagem social, o esforço de disfarçar características autistas, é comum, especialmente em mulheres, e está associada a exaustão e sofrimento psicológico (Hull et al., 2017). A avaliação neuropsicológica permite mapear esse perfil individual e orientar estratégias mais adequadas.
O plano é escolhido a partir da avaliação de cada pessoa. Estas são algumas das estratégias com mais evidências para este tema.