VÍCIO EM APOSTAS

Quando a aposta deixa de ser diversão

As apostas online chegaram ao celular de milhões de brasileiros. Para muita gente, o que começou como passatempo virou dívida, segredo e noites sem dormir. Se você sente que perdeu o controle, ou se convive com alguém nessa situação, não precisa enfrentar isso sozinho.

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ENTENDENDO O TEMA

O que é vício em apostas?

O jogo problemático acontece quando apostar passa a causar prejuízos financeiros, emocionais, familiares ou profissionais, e mesmo assim fica difícil parar. Em casos mais intensos, ele é reconhecido como transtorno do jogo, um quadro de saúde e não uma falha de caráter.

As plataformas de apostas e cassinos online são desenhadas para manter a pessoa jogando: recompensas imprevisíveis, bônus, a sensação de quase ganhar e o acesso a qualquer hora. Entender esses mecanismos é parte importante do caminho para retomar o controle.

UM OLHAR DE DENTRO DO SETOR

Da neuropsicologia do jogador às estratégias das plataformas

Antes de me dedicar integralmente à clínica, atuei por cerca de cinco anos como gestor de pessoas em empresas de tecnologia e transações digitais cujos clientes eram casas de apostas. Acompanhei de perto como esse mercado opera: a engenharia de retenção, a lógica dos bônus e das promoções, a leitura minuciosa do comportamento do apostador e o ritmo de uma operação que não para, 24 horas por dia.

Essa vivência se soma à formação em Psicologia, à pós-graduação em Avaliação Neuropsicológica e à capacitação em cuidado a pessoas com problemas relacionados a jogos de aposta na Rede de Atenção Psicossocial. O resultado é uma compreensão integrada do problema: dos mecanismos neuropsicológicos de recompensa, impulsividade e tomada de decisão que sustentam o jogo às estratégias desenhadas pelas plataformas para mantê-lo.

Na terapia, esse conhecimento ajuda você a enxergar com clareza as armadilhas do ambiente de apostas e a construir, com base em evidências científicas, um caminho consistente para retomar o controle da própria vida.

SINAIS DE ATENÇÃO

Quando vale buscar ajuda

Apostar valores cada vez maiores para sentir a mesma emoção
Voltar a apostar para tentar recuperar o que perdeu
Esconder da família quanto tempo ou dinheiro gasta com apostas
Pegar empréstimos, usar o limite do cartão ou vender bens para jogar
Irritação, ansiedade ou inquietação quando tenta diminuir ou parar
Pensar em apostas boa parte do dia e deixar de lado trabalho, estudos ou relações

Esses sinais servem como orientação e não substituem uma avaliação profissional. Cada pessoa é única, e só uma conversa cuidadosa permite entender o seu caso.

Se você estiver em sofrimento intenso ou pensando em tirar a própria vida, procure ajuda agora: ligue para o CVV no 188 (gratuito, 24 horas), para o SAMU no 192 ou vá ao pronto-socorro mais próximo.
TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL

Como a TCC pode ajudar

O acompanhamento é construído com você, com objetivos claros e estratégias práticas. Presencial em Campina Grande — PB ou online para todo o Brasil.

  1. Entender o ciclo do jogo: gatilhos, pensamentos de recuperação e o alívio que mantém o hábito
  2. Identificar crenças típicas do jogo, como a ideia de que uma vitória está perto ou de que é possível controlar o resultado
  3. Construir barreiras práticas: autoexclusão das plataformas, controle de acesso ao dinheiro e plano para momentos de risco
  4. Cuidar da ansiedade, da culpa e das relações afetadas, e orientar a família sobre como apoiar sem adoecer junto
PARA SE APROFUNDAR · DSM-5-TR

Quadros relacionados a vício em apostas

No DSM-5-TR, o transtorno do jogo está no capítulo de transtornos relacionados a substâncias e transtornos aditivos. É o único comportamento sem uso de substância incluído nesse capítulo, porque a pesquisa mostrou que ele ativa sistemas de recompensa semelhantes aos das dependências químicas.

Transtorno do jogo

Comportamento de jogo persistente e recorrente que leva a prejuízo ou sofrimento significativo, com pelo menos quatro sinais em 12 meses, como necessidade de apostar valores maiores, tentativas fracassadas de parar, irritação ao tentar reduzir, voltar a jogar para recuperar perdas, mentir para esconder o jogo e depender de outras pessoas para cobrir dívidas.

Gravidade

O quadro é classificado como leve, moderado ou grave conforme o número de critérios presentes. Também se avalia se o padrão é episódico ou persistente e se a pessoa está em remissão inicial ou sustentada.

Condições associadas

É comum que o transtorno do jogo apareça junto com depressão, ansiedade, uso de álcool e outras substâncias e TDAH. O risco de suicídio também é maior, por isso a avaliação inclui sempre esses aspectos.

Estas descrições são resumos educativos do DSM-5-TR (Associação Americana de Psiquiatria, 2023). Só um profissional habilitado pode fazer um diagnóstico, depois de uma avaliação cuidadosa. Ter alguns desses sinais não significa ter um transtorno.

BASE CIENTÍFICA

O que a ciência explica

Modelos da terapia cognitiva, da análise do comportamento, da ativação comportamental, da neurociência e da neuropsicologia ajudam a entender o que mantém o sofrimento e o que ajuda a mudar.

Modelo cognitivo

Pessoas com jogo problemático tendem a superestimar a chance de ganhar e a acreditar que podem influenciar resultados aleatórios, como na ilusão de controle e na falácia do apostador (Ladouceur & Walker, 1996). A TCC trabalha essas distorções e as decisões que mantêm o jogo (Petry et al., 2017).

Análise do comportamento

Os jogos de azar funcionam com reforço em esquema de razão variável: o prêmio vem de forma imprevisível, o que produz um comportamento muito resistente à extinção. Os 'quase acertos' e os bônus das plataformas reforçam ainda mais esse ciclo (Blaszczynski & Nower, 2002).

Neurociência e neuropsicologia

O jogo ativa o sistema de recompensa dopaminérgico de forma semelhante às substâncias (Potenza, 2013). Estudos neuropsicológicos mostram impulsividade e dificuldades na tomada de decisão em pessoas com transtorno do jogo, o que ajuda a planejar a intervenção.

NA PRÁTICA CLÍNICA

Estratégias com respaldo científico

O plano é escolhido a partir da avaliação de cada pessoa. Estas são algumas das estratégias com mais evidências para este tema.

  • Psicoeducação sobre o ciclo do jogo e o funcionamento das plataformas
  • Reestruturação cognitiva de crenças de controle e de recuperação de perdas
  • Controle de estímulos: autoexclusão, bloqueios e manejo do dinheiro
  • Entrevista motivacional para fortalecer a decisão de mudança
  • Prevenção de recaída e orientação a familiares
Referências científicas (7)
  • American Psychiatric Association. (2023). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR (5ª ed., texto revisado). Artmed.
  • Beck, J. S. (2022). Terapia cognitivo-comportamental: Teoria e prática (3ª ed.). Artmed.
  • Blaszczynski, A., & Nower, L. (2002). A pathways model of problem and pathological gambling. Addiction, 97(5), 487–499.
  • Hofmann, S. G., Asnaani, A., Vonk, I. J. J., Sawyer, A. T., & Fang, A. (2012). The efficacy of cognitive behavioral therapy: A review of meta-analyses. Cognitive Therapy and Research, 36(5), 427–440.
  • Ladouceur, R., & Walker, M. (1996). A cognitive perspective on gambling. In P. M. Salkovskis (Ed.), Trends in cognitive and behavioural therapies (pp. 89–120). Wiley.
  • Petry, N. M., Ginley, M. K., & Rash, C. J. (2017). A systematic review of treatments for problem gambling. Psychology of Addictive Behaviors, 31(8), 951–961.
  • Potenza, M. N. (2013). Neurobiology of gambling behaviors. Current Opinion in Neurobiology, 23(4), 660–667.
DÚVIDAS FREQUENTES

Perguntas sobre vício em apostas

Sim. A Terapia Cognitivo-Comportamental é uma das abordagens mais estudadas para o jogo problemático. O ritmo do acompanhamento é combinado com você e, quando necessário, ele pode caminhar junto com acompanhamento médico.
Pode. Familiares também sofrem com dívidas, mentiras e preocupação. O acompanhamento ajuda a entender o problema, estabelecer limites e apoiar a pessoa sem se esgotar.
Sim. O CAPS da sua cidade atende pessoas com problemas relacionados ao jogo pelo SUS, e grupos como os Jogadores Anônimos oferecem apoio gratuito. A psicoterapia individual pode complementar esse cuidado.

Vamos conversar sobre o que você está vivendo?

Psicólogo Marcos Gonçalves — CRP 13/13951. Escuta qualificada, sem julgamentos, unindo ciência e cuidado humano.

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